terça-feira, 10 de julho de 2018

MULHERES PEDEM AÇÕES AFIRMATIVAS E GESTÃO PROFISSIONAL NO FUTEBOL FEMININO

Em clima de Copa do Mundo, mulheres cobraram respeito, patrocínio, estrutura de base, ações afirmativas e gestão profissional no futebol feminino. O apoio a essa modalidade esportiva foi debatido nesta quinta-feira (5) em audiência pública da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Câmara dos Deputados.
O debate reuniu atletas, dirigentes e representantes dos movimentos Deixa Ela Trabalhar e Mulheres de Arquibancadas, que relataram falta de respeito às mulheres dentro e fora dos gramados.
Apesar de conquistas recentes, o futebol feminino ainda é marcado por preconceitos, baixos salários e reduzido investimento, sobretudo na formação de atletas. O principal patrocinador do futebol feminino no Brasil é a Caixa Econômica Federal. Neste ano, no entanto, o banco reduziu o aporte de recursos devido ao corte de 35% em seu orçamento.
Os organizadores de competições nacionais ainda buscam alternativas de patrocínio e programaram reuniões com a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e o Ministério do Esporte, depois da Copa da Rússia.
Para Alfredo Carvalho Filho, dono de uma empresa promotora de campeonatos (Sport Promotion), o Brasil ainda sofre de “miopia de marketing”, por não enxergar o potencial do futebol feminino. Segundo ele, a Caixa investiu R$ 10 milhões nos últimos quatro campeonatos brasileiros e teve retorno de R$ 107 milhões com a exposição da marca.
Cidadania
Ex-zagueira e capitã da seleção brasileira e atual dirigente da Federação Paulista de Futebol, Aline Pellegrino afirmou que parte do problema é cultural e que o futebol feminino pode ser um instrumento de transformação cidadã.

“A gente tem essa arma na mão para tentar melhorar uma sociedade enquanto espaço de homens e mulheres. A sociedade foi sempre pré-definida e a gente sabe o quão mal isso faz para as mulheres: desde violência, assédio e uma série de fatores que não adianta a gente achar que é ‘mimimi’. Antigamente, as coisas aconteciam de forma natural e ninguém falava nada. Hoje não cabe mais isso”, afirmou.
Aline defendeu a união de instituições que atuam na área para superar burocracias que travam o desenvolvimento do futebol feminino. Também citou o exemplo dos Estados Unidos, onde o investimento no esporte é dividido, meio a meio, entre as modalidades masculinas e femininas. Segundo Aline, a Lei do Profut (Lei 13.155/15), que permite o refinanciamento das dívidas de clubes de futebol, prevê contrapartidas de apoio ao futebol feminino que não vêm sendo cumpridas.
Assédio
Vítima de assédio em estádios e idealizadora do movimento Deixa Ela Trabalhar, a jornalista Bruna Dealtry se queixou que o Estatuto do Torcedor (Lei 10.671/03) ainda é muito vago quanto à repressão à violência contra as mulheres. Tanto na prática quanto na cobertura do esporte, Bruna sintetizou a necessidade de mudança cultural.

“Não queríamos passar a ideia de vítimas ou criar uma rivalidade entre homens e mulheres. Não é por aí, até porque todos fomos criados em uma sociedade machista. No começo das mulheres no jornalismo esportivo, elas entravam muito pelo padrão de beleza. Mas hoje em dia, não: a gente tem que ter conteúdo e a gente está aqui para fazer a diferença também, contando a história da nossa maneira”, disse Bruna.
Na Copa da Rússia, apenas 14% dos jornalistas são mulheres e muitas já foram vítimas de assédio durante o trabalho. Representante do movimento Mulheres de Arquibancadas, Carla Ambrósio repudiou o papel de “musas” para as mulheres e afirmou que o machismo não pode impedir a consolidação da presença feminina no contexto futebolístico.
Ações afirmativas
Organizadora do debate, a deputada Ana Perugini (PT-SP) sugeriu um seminário para buscar ações afirmativas de participação das mulheres no futebol.

“No ano que vem, nós teremos o Campeonato Mundial Feminino, que vai ocorrer na França. Nós precisamos tratar disso em um seminário para que saiamos daqui com apontamentos e para que possamos criar políticas afirmativas que possibilitem uma igualdade maior entre homens e mulheres, inclusive no mundo dos esportes”, disse a deputada.
O futebol feminino era proibido pelo Conselho Nacional de Desportos até o início da década de 1980, com base em um decreto (3.199/41) do ex-presidente Getúlio Vargas que citava “desportos incompatíveis com as condições da natureza” feminina. Desde 1996, o futebol feminino foi incluído na lista de esportes olímpicos.
Entre os resultados expressivos, as mulheres do futebol brasileiro conquistaram medalhas de ouro nos Pan-americanos de Santo Domingo (2003), Rio de Janeiro (2007) e Toronto (2015) e de prata nas Olimpíadas de Atenas (2004) e Pequim (2008).
Agência Brasil.

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